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FakeArch X arquitetura de verdade

22/01/2021

Imagem: shuterstock.com


Quaisquer formas de vida social e cultural passam necessariamente pela mediação dos objetos. Roupas, ornamentos corporais, espécies de comidas e bebidas, itens de arte, casas, mobílias, enfim, todo um conjunto de objetos e materiais circulam pela nossa vida e dão sentido a nossa existência.

Somos expostos cotidianamente a uma teia complexa de objetos e na maioria das vezes, a tendência mais forte é nos esquecermos da existência desses materiais. Justamente por essa razão, faz sentido questionarmos seus significados, bem como suas utilidades e transformações.

 

Capturando a essência

Se mergulharmos na filosofia grega vamos entender que a essência de uma coisa tem caráter permanente e central. Para Platão, a verdadeira realidade está na essência, na forma pura. O termo designa o ser, a sua consistência. Desse modo, dizer o que é um material é declarar a sua essência. Isso vale para uma mesa de madeira, uma poltrona de couro ou um prato de porcelana.

A essência das coisas está na natureza. E o ser humano, ao criar os espaços da arquitetura, está também, imitando os cenários da natureza. É possível ver essa mímesis na projeção do interior de um espaço: a natureza está presente nos tons terrosos dos pisos, na madeira colocada em algumas superfícies e nas cores claras, que aludem ao céu, com que o teto é pintado.


Imagem: shutterstock.com


Os filósofos gregos já afirmavam a visão como o mais nobre dos sentidos e a cultura ocidental coloca o pensamento no mesmo patamar que a visão. No entanto, a primazia da visão sobre os outros sentidos encontrou seus críticos. René Descartes, por exemplo, considerava o sentido do tato menos vulnerável a erros do que a visão.  Com o tato, podemos perceber a materialidade do objeto ao tocá-lo e compreender do que ele é feito. E, se enxergamos uma mesa de madeira, mas, ao tocarmos, o material for outro?

 

A visão acrescida do tato

De acordo com o arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o ingrediente tátil inconsciente que existe na visão é bastante negligenciado na arquitetura de nossa época. Isso porque a arquitetura atual parece ser uma mera arte da retina, e não um encontro corporal de situações.

Assim, em vez de experimentar a existência dos objetos e de sua materialidade no mundo, apenas os contemplamos, como meros espectadores. Ainda, essa contemplação está carregada de imitações ou falsas interpretações da realidade.

É a era da imitação e do fake: a planta que decora a sala é de plástico. O sofá parece couro, mas ao mínimo toque, percebemos que o material é uma imitação. A madeira do chão na verdade, é um porcelanato e o concreto das paredes, feito com uma placa de MDF.  Onde estão a vegetação, o couro, a madeira e o concreto?


textura de couro, em FakeArch X arquitetura de verdade

Imagem: shutterstock.com


Materialidade e temporalidade

Existe uma história da aplicação e uso dos materiais naturais na arquitetura. O uso de madeira, pedra e tijolo permite que nossa visão penetre em suas superfícies e nos convençamos da veracidade e idade da matéria. Já a construção padrão atual, com toda a sua imitação de materiais, enfraquece esse senso de materialidade.

Ao visitarmos um templo de uma antiga civilização, a riqueza consiste em perceber sua origem e seu histórico de uso pelos humanos. É o desgaste da pedra quem conta a história e torna a experiência enriquecedora. É a arquitetura marcando uma era através do tempo e da materialidade. Já os materiais industrializados atuais acabam por não transmitir essa essência material ou sua idade.

 

Sentidos negligenciados

Na arquitetura, toda experiência que emociona é multissensorial. Isso significa dizer que nós não medimos a matéria, escala e características de um espaço usando apenas a visão. Usamos igualmente ouvidos, nariz, pele e músculos. A arquitetura reforça nossa existência no mundo, ou, como coloca Juhani Pallasmaa, nossa sensação de pertencimento. Isso porque, além dos cinco sentidos clássicos, ela envolve outras esferas da experiência sensorial.

Agora, imaginemos um piso de um material que imita madeira: um porcelanato ou um PVC, apenas para citar alguns exemplos. À primeira vista, você realmente enxerga a madeira, mas sua experiência termina aí, no sentido visual. Ao usar um material com a intenção de imitar um já existente, se perde a essência física, sensorial e corporal, preceitos esses, tão importantes e buscados com a arquitetura.


FakeArch X arquitetura de verdade

Imagem: shutterstock.com


Quando projetamos um ambiente e escolhemos determinado material, a ideia é trazer um conjunto de sensações.  Ao usar a madeira em uma construção, buscamos criar um sistema de conforto ambiental ao explorarmos as propriedades térmicas, táteis e acústicas próprias da madeira. Já a imitação, traz uma mudança na percepção e experiência sensorial.

 

Essência e multissensorialidade

Os arquitetos precisam estar conscientes de que projetam espaços para pessoas e de que as pessoas vão interagir com os espaços construindo suas memórias e seus sensos de pertencimento. Sendo assim, a arquitetura deve oferecer uma materialidade adequada.

Nós prezamos pela essência e multissensorialidade ao se pensar a materialidade. A ideia é buscar honestidade e transparência na escolha e no uso dos materiais. Uma verdade que perpassa a funcionalidade e a estética.


FakeArch X arquitetura de verdade

Imagem: shutterstock.com


Referências:

Juhani Pallasmaa. Os olhos da pele: A arquitetura e os sentidos. Editora Bookman, 2011

 

  Por Thaís Ramos

 

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